O crescimento populacional e as mudanças nos padrões de consumo, sobretudo a partir da década de 1960, foram motores centrais para o aumento exponencial da demanda por alimentos, fibras e energia. Essa transformação abriu uma enorme oportunidade de geração de valor e renda para o agronegócio global.
A resposta a esse desafio veio por meio de investimentos robustos, tanto públicos quanto privados, na evolução tecnológica da produção. O Brasil se destacou nesse processo: mesmo com um crescimento relativamente linear da área plantada, alcançamos saltos expressivos em produtividade. Isso foi possível pelo uso intensivo da terra — com mais de um cultivo por ano em várias regiões — e pelo avanço no manejo agronômico.
Iniciativas como o CESB (Comitê Estratégico Soja Brasil), o GETAP (Grupo Tático para Aumento de Produtividade do Milho), o NIFC (Núcleo de Inteligência para o Fortalecimento da Cafeicultura) e o Soybean Money Maker são exemplos de esforços coletivos que reuniram produtores, consultores, indústria e pesquisadores para elevar o patamar produtivo de nossas culturas.
O novo valor: além da produtividade
Aumentar produtividade continua sendo um eixo central do agronegócio. Mas já não é suficiente. Hoje, gerar valor significa atender também às dores e aspirações dos consumidores finais.
Nos últimos anos, a agenda da sustentabilidade ganhou força. Programas de agricultura regenerativa e de baixo carbono começam a se consolidar como caminhos reais de diferenciação. O RenovaBio, na cadeia da cana-de-açúcar, é um caso emblemático, apontando direções que podem inspirar outras cadeias produtivas.
Assim, a rentabilidade no campo passa a depender de um empilhamento de camadas de valor: produtividade, sustentabilidade, eficiência, gestão — e um olhar atento ao que a sociedade clama.
A oportunidade do bem-estar
Uma dessas demandas emergentes é o mercado de wellness (bem-estar), que cresce em ritmo acelerado. Vemos uma explosão no número de academias, suplementos e serviços voltados à saúde e qualidade de vida.
Nesse movimento, o agronegócio ainda atua de forma periférica, quando poderia ser protagonista. Existe uma oportunidade enorme em aumentar a qualidade nutricional dos alimentos que chegam às mesas. E aqui não falamos apenas de segurança alimentar ou atributos sensoriais — pontos já consolidados — mas de uma verdadeira densificação nutricional, que torne alimentos acessíveis também em termos de vitaminas e minerais essenciais.
Esse conceito, conhecido como agricultura funcional ou biofortificação, representa uma das maiores oportunidades de impacto social e econômico para o setor.
Do campo à mesa, com ciência
No Brasil e no mundo, a academia tem avançado de forma exemplar nesse tema. Pesquisadores como Ismail Cakmak (Sabanci University), André Reis (Unesp) e Luiz Roberto Guimarães Guilherme (UFLA) mostram, por meio de evidências científicas, como a biofortificação agronômica pode elevar significativamente a concentração de nutrientes como zinco, ferro, magnésio e até iodo — essencial para os humanos, ainda que não para as plantas.
Esses trabalhos revelam o potencial de transformar a agricultura não apenas em produtora de alimentos, mas em vetor ativo de saúde pública.
Um chamado coletivo
Escalar a agricultura funcional para a economia real exigirá muito mais que pesquisa: será preciso um esforço coletivo entre Estado, setor de saúde, distribuição de alimentos, indústria do agronegócio, setor financeiro e empresas de tecnologia.
A nós, como setor, cabe a atitude de responder à altura dessa oportunidade. Afinal, o futuro da geração de valor no agronegócio está em integrar produtividade, sustentabilidade e nutrição, para que a agricultura seja reconhecida não apenas como fornecedora de alimentos, mas como aliada direta do bem-estar da sociedade.